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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A história do abolicionismo no Brasil...


28 de Setembro

O projeto da Lei do Ventre Livre foi proposto pelo gabinete conservador presidido pelo visconde do Rio Branco em 27 de maio de 1871. Por vários meses, os deputados dos partidos Conservador e Liberal discutiram a proposta. Em 28 de setembro de 1871 a lei nº 2040 após ter sido aprovada pela Câmara, foi também aprovado pelo Senado. Embora tenha sido objeto de grandes controvérsias no Parlamento, a lei representou, na prática, um passo tímido na direção do fim da escravatura.
A história do abolicionismo no Brasil remonta à primeira tentativa de abolição da escravidão indígena, em 1611, e a sua abolição definitiva, pelo Marques de Pombal, durante o reinado de  D.José I , e aos movimentos emancipacionistas no período colonial, particularmente a Conjuração Baiana de 1798, em cujos planos encontrava-se o da erradicação da escravidão. Após a Independência do Brasil, as discussões a este respeito estenderam-se por todo o período do Império, tendo adquirido relevância a partir de 1850, e, caráter verdadeiramente popular, a partir de 1870, culminando com a assinatura da Lei  Aurea de 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão negra no Brasil.
Desde o começo do século XIX se iniciaram os debates sobre a escravidão no Brasil ainda na primeira metade do século muitos políticos e intelectuais defendiam a abolição. A pressão foi aumentando à medida que a Inglaterra consolidava sua Revolução Industrial e estabelecia a mão-de-obra assalariada como a melhor para a nova ordem mundial. Como o trabalho do escravo não cabia de nenhuma remuneração, essas pessoas não se faziam como consumidores para os produtos gerados nas novas fábricas inglesas.
Na década de 1830 surgiu no Brasil a primeira lei coibindo o trabalho escravo, mas que acabou sendo ignorada pelos proprietários de escravos. O choque maior sobre a utilização do trabalho compulsório aconteceria em 1845 com a promulgação da lei inglesa Bill Aberdeen. Através desta, a Inglaterra se colocava no direito de legislar sobre os navios que realizassem o tráfico negreiro em sentido ao Brasil, a lei proibia tal comércio no Oceano Atlântico. Como o Brasil tinha relação muito íntima com a Inglaterra, por causa de sua liderança econômica mundial, teve que atender à solicitação. Todavia, é claro que houve manobras para que a utilização da mão-de-obra escrava não se encerrasse naquele momento. Nos primeiros anos após a lei o Brasil foi impactado de tal forma que em 1850 foi promulgada a   lei Eusébio de Queiros no país estabelecendo também o fim do tráfico negreiro. A medida inglesa que teve como consequência a lei brasileira causou a insatisfação de muitos fazendeiros, os quais arrumaram alternativas para conseguir seus trabalhadores, como o tráfico interno, por exemplo. Entretanto nas décadas seguintes o número de escravos chegados ao Brasil voltou a aumentar substancialmente.
"Declara de condição livre os filhos de mulher escrava que nascerem desde a data desta lei, libertos os escravos da Nação e outros, e providencia sobre a criação e tratamento daqueles filhos menores e sobre a libertação anual de escravos.
A princesa imperial regente, em nome de Sua Majestade o imperador o senhor d. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte:
Art. 1o: Os filhos da mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre.
§1o: Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá a opção, ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. No primeiro caso o governo receberá o menor, e lhe dará destino, em conformidade da presente lei. A indenização pecuniária acima fixada será paga em títulos de renda com o juro anual de 6%, os quais se considerarão extintos no fim de trinta anos. A declaração do senhor deverá ser feita dentro de trinta dias, a contar daquele em que o menor chegar à idade de oito anos e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbítrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor.
§2o: Qualquer desses menores poderá remir-se do ônus de servir, mediante prévia indenização pecuniária, que por si ou por outrem ofereça ao senhor de sua mãe, procedendo-se à avaliação dos serviços pelo tempo que lhe restar a preencher, se não houver acordo sobre o quantum da mesma indenização.

§3o: Cabe também aos senhores criar e tratar os filhos que as filhas de suas escravas possam ter quando aquelas estiverem prestando serviço. Tal obrigação, porém, cessará logo que findar a prestação dos serviços das mães. Se estas falecerem dentro daquele prazo, seus filhos poderão ser postos à disposição do governo.
§4o: Se a mulher escrava obtiver liberdade, os filhos menores de oito anos que estejam em poder do senhor dela, por virtude do §1o, lhe serão entregues, exceto se preferir deixá-los e o senhor anuir a ficar com eles.
§5o: No caso de alienação da mulher escrava, seus filhos livres, menores de doze anos, a acompanharão, ficando o novo senhor da mesma escrava sub-rogado nos direitos e obrigações do antecessor.
§6o: Cessa a prestação dos serviços dos filhos das escravas antes do prazo marcado no §1o, se, por sentença do juízo criminal, reconhecer-se que os senhores das mães os maltratam, infligindo-lhes castigos excessivos.
§7o: O direito conferido aos senhores no §1o transfere-se nos casos de sucessão necessária, devendo o filho da escrava prestar serviços à pessoa a quem nas partilhas pertencer a mesma escrava.
Art. 2o: O governo poderá entregar a associações por ele autorizadas os filhos das escravas, nascidos desde a data desta lei, que sejam cedidos ou abandonados pelos senhores delas, ou tirados do poder destes em virtude do Art. 1o, §6o.
§1o Aditas associações terão direito aos serviços gratuitos dos menores até a idade de 21 anos completos e poderão alugar esses serviços, mas serão obrigadas:
1o: A criar e tratar os mesmos menores.
2o: A constituir para cada um deles um pecúlio, consistente na quota que para este fim for reservada nos respectivos estatutos.
3o: A procurar-lhes, findo o tempo de serviço, apropriada colocação.
§2o: As associações de que trata o parágrafo antecedente serão sujeitas inspeção dos juízes de órfãos, quanto aos menores.
§3o: A disposição deste artigo é aplicável às casas de expostos e às pessoas a quem os juízes de órfãos encarregarem a educação dos ditos menores, na falta de associações ou estabelecimentos criados para tal fim.
§4o: Fica salvo ao governo o direito de mandar recolher os referidos menores aos estabelecimentos públicos, transferindo-se neste caso para o Estado as obrigações que o §1o impõe às associações autorizadas.
Art. 3o: Serão anualmente libertados em cada província do Império tantos escravos quantos corresponderem à quota anualmente disponível do fundo destinado para a emancipação.
§1o: O fundo da emancipação compõe-se:
1º: Da taxa de escravos.
2º: Dos impostos gerais sobre transmissão de propriedade dos escravos.
3º: Do produto de seis loterias anuais, isentas de impostos, e da décima parte das que forem concedidas d’ora em diante para correrem na capital do Império.
4º: Das multas impostas em virtude desta lei.
5º: Das quotas que sejam marcadas no orçamento geral e nos provinciais e municipais.
6º: De subscrições, doações e legados com esse destino.
§2º: As quotas marcadas nos orçamentos provinciais e municipais, assim como as subscrições, doações e legados com destino local, serão aplicadas emancipação nas províncias, comarcas, municípios e freguesias designadas.
Art. 4º: É permitido ao escravo a formação de um pecúlio com o que lhe provier de doações, legados e heranças, e com o que, por consentimento do senhor, obtiver do seu trabalho e economias. O governo providenciará nos regulamentos sobre a colocação e segurança do mesmo pecúlio.
§1º: Por morte do escravo, metade do seu pecúlio pertencerá ao cônjuge sobrevivente, se o houver, e a outra metade se transmitirá aos seus herdeiros, na forma de lei civil. Na falta de herdeiros, o pecúlio será adjudicado ao fundo de emancipação de que trata o art. 3º.
§2º: O escravo que, por meio de seu pecúlio, obtiver meios para indenização de seu valor, tem direito à alforria. Se a indenização não for fixada por acordo, o será por arbitramento. Nas vendas judiciais ou nos inventários o preço da alforria será o da avaliação.
§3º: É, outrossim, permitido ao escravo, em favor da sua liberdade, contratar com terceiro a prestação de futuros serviços por tempo que não exceda de sete anos, mediante o consentimento do senhor e aprovação do juiz de órfãos.
§4º: O escravo que pertencer a condôminos, e for libertado por um destes, terá direito à sua alforria, indenizando os outros senhores da quota do valor que lhes pertencer. Esta indenização poderá ser paga com serviços prestados por prazo não maior de sete anos, em conformidade do parágrafo antecedente.
§5º: A alforria com a cláusula de serviços durante certo tempo não ficará anulada pela falta de implemento da mesma cláusula, mas o liberto será compelido a cumpri-la por meio de trabalho nos estabelecimentos públicos ou por contratos de serviços a particulares.
§6º: As alforrias, quer gratuitas, quer a título oneroso, serão isentas de quaisquer direitos, emolumentos ou despesas.
§7º: Em qualquer caso de alienação ou transmissão de escravos é proibido, sob pena de nulidade, separar os cônjuges, e os filhos menores de doze anos, do pai ou mãe.
§8º: Se a divisão de bens entre herdeiros ou sócios não comportar a reunião de uma família, e nenhum deles preferir conservá-la sob o seu domínio, mediante reposição da quinta parte dos outros interessados, será a mesma família vendida e o seu produto rateado.
§9º: Fica derrogada a ord. liv. 4º, tít. 63, na parte que revoga as alforrias por ingratidão.
Art. 5º: Serão sujeitas à inspeção dos juízes de órfãos as sociedades de emancipação já organizadas e que de futuro se organizarem.
Parágrafo único: As ditas sociedades terão privilégio sobre os serviços dos escravos que libertarem, para indenização do preço da compra.
Art. 6º: Serão declarados libertos:
§1º: Os escravos pertencentes à Nação, dando-lhes o governo a ocupação que julgar conveniente.
§2º: Os escravos dados em usufruto à Coroa.
§3º: Os escravos das heranças vagas.
§4º: Os escravos abandonados por seus senhores. Se estes os abandonarem por inválidos, serão obrigados a alimentá-los, salvo caso de penúria, sendo os alimentos taxados pelo juiz de órfãos.
§5º: Em geral os escravos libertados em virtude desta lei ficam durante cinco anos sob a inspeção do governo. Eles são obrigados a contratar seus serviços sob pena de serem constrangidos, se viverem vadios, a trabalhar nos estabelecimentos públicos. Cessará, porém, o constrangimento do trabalho sempre que o liberto exibir contrato de serviço.

Art. 7º: Nas causas em favor da liberdade:
§1º: O processo será sumário.
§2º: Haverá apelações ex-oficio quando as decisões forem contrárias liberdade.
Art. 8º: O governo mandará proceder à matrícula especial de todos os escravos existentes no Império, com declaração de nome, sexo, estado, aptidão para o trabalho e filiação de cada um, se for conhecida.
§1º: O prazo em que deve começar e encerrar-se a matrícula será convencionado com a maior antecedência possível por meio de editais repetidos, nos quais será inserida a disposição do parágrafo seguinte.
§2º: Os escravos que, por culpa ou omissão dos interessados, não forem dados a matrícula, até um ano depois do encerramento desta, serão por este fato considerados libertos.
§3º: Pela matrícula de cada escravo pagará o senhor por uma vez somente o emolumento de quinhentos réis, se o fizer dentro do prazo marcado, e de mil réis, se exceder o dito prazo. O provento deste emolumento será destinado a despesas da matrícula, e o excedente ao fundo de emergência.
§4º: Serão também matriculados em livro distinto os filhos da mulher escrava que por esta lei ficam livres. Incorrerão os senhores omissos, por negligência, na multa de cem mil réis a duzentos mil réis, repetidas tantas vezes quantos forem os indivíduos omitidos, e por fraude, nas penas do artigo 179 do Código Criminal.
§5º: Os párocos serão obrigados a ter livros especiais para o registro dos nascimentos e óbitos dos filhos de escravas nascidos desde a data desta lei. Cada omissão sujeitará os párocos a multa de cem mil réis.
Art. 9º: O governo em seus regulamentos poderá impor multas até cem mil réis e penas de prisão simples até um mês.
Art. 10: Ficam revogadas as disposições em contrário. Manda portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém. O secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas a façam imprimir, publicar e correr.
Dada no Palácio do Rio de Janeiro, aos vinte e oito de setembro de mil oitocentos setenta e um, quinquagésimo da Independência e do Império.

 1871-

A Assembléia Geral Decreta:
Artigo 1º. Os filhos da mulher escrava, que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre.
§ 1º. Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão a obrigação de crial-os e tratal-os até a idade de oito anos completos.
Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá a opção ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos.
No primeiro caso o Governo receberá o menor e lhe dará destino, em conformidade da presente lei.
A indenização pecuniária acima fixada será paga em títulos de renda com o juro anual de 6%, os quase se considerarão extintos no fim de 30 anos. A declaração do senhor deverá ser feita dentro de 30 dias, a contar daquele em que o menor chegar á idade de oito anos; e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbítrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor.
§ 2º. Qualquer desses menores poderá remir-se do ônus de servir, mediante prévia indenização pecuniária, que por si ou por outrem ofereça ao senhor de sua mãe, procedendo-se.
Joaquim Nabuco escreveu em 1883:
O abolicionismo é antes de tudo um movimento político, para o qual, sem dúvida, poderosamente concorre o interesse pelos escravos e a compaixão pela sua sorte, mas que nasce de um pensamento diverso: o de reconstruir o Brasil sobre o trabalho livre e a união das raças na liberdade.

Um afro abraço.

Fonte: www.dhnet.org.br/ Abolição no Parlamento: 65 anos de lutas (1823-1888). Volume IIi . Senado Federal.Sub Secretaria de Arquivo .Brasilia 1988/ MOTA, Carlos Guilherme; & FERREIRA, Gabriela Nunes. "Os juristas na formação do Estado-Nação Brasileiro (1850-1930)". São Paulo: Saraiva, 2010.



Mãe Preta?!?!?!


Por um lado, prevalece há séculos a noção convencional da Mãe Preta construída pela sociedade racista: um símbolo de subordinação, abnegação e bondade passiva. Por outro lado, surge o retrato da mulher negra construído por ela própria na ação social, na militância política e na vivência cultural.

 História :

A mãe-preta é figura muito presente na história brasileira, desde o período da escravidão até os primeiros anos do século XX, quando as negras passam a serem preteridas pelas brancas imigrantes. Momento em que a sociedade não valorizava mais o trabalho das mulheres negras e nem a presença delas na cidade. Amas criadeiras passaram a ser vistas como perigosas moradoras de cortiços que transmitiam doenças para as famílias brancas. A partir da metade do século XIX, apareceram imagens divergentes de ama-de-leite:

a mãe negra não era mais a encarnação do alimento e dos cuidados afetuosos, tornou-se também um espectro de doença medonha. Com o leite de seu corpo poderia infectar o inocente com a tuberculose, ou até mesmo a sífilis. As moléstias que antes os patrões, consideravam seu dever cuidar vieram a ser consideradas importações transportadas pelas criadas.

A historiadora Maria Aparecida da Silva Lopes, afirma que nas primeiras décadas do século XX, muitos brancos passaram a deplorar o efeito corruptor que a criação dada por amas negras tinha sobre as crianças brancas, chegando a ponto de sugerir que os brancos absorviam os vícios das vidas dos negros, sem falar nas doenças passadas através do leite da mãe preta. Estes rejeitavam inteiramente a idéia das contribuições culturais da mãe preta, declarando que algumas escravas negras em nada contribuíram para a formação da raça e da nacionalidade.

Apesar dessa rejeição, a partir de 1920, o dia 28 de setembro, dia da aprovação da lei do ventre livre, passou a ser adotado como o dia da mãe preta. E em 1954 foi inaugurada na cidade São Paulo, no Largo do Paissandu, um monumento à mãe preta.

Lélia Gonzalez, antropóloga e feminista negra propôs na década de 1980, uma releitura da personagem estereotipada da “mãe-preta”. Para ela, essa figura, em vez de representar a aceitação da condição de escrava, afirmava a resistência negra construída no cotidiano das relações entre senhores e escravos. Já que por meio das cantigas de ninar repletas de palavras africanas e na linguagem cotidiana ensinada às crianças brancas a “mãe-preta” marcava traços africanos na sociedade brasileira. Para Lélia Gonzalez a língua brasileira deveria se chamar “pretuguês”, tamanha a influência da África e das mulheres negras em sua formação."
Em 28 de setembro, data da promulgação da Lei do Ventre Livre, comemora-se, também, o Dia da Mãe Preta.
É uma expressão tradicional. Hoje, o mais correto seria dizer-se Mãe Negra. 
A Lei do Ventre Livre, sancionada em 1871 pela Princesa Isabel, foi dos primeiros atos oficiais visando a libertação dos escravos, talvez o mais difícil, porem dos mais emotivos, nessa caminhada longa que o Brasil percorreu até a abolição da escravatura. E foi a delicada mão de Isabel, a Redentora, que assinou a lei através da qual os filhos concebidos pelas negras escravas seriam livres a partir de então. Escravas, elas passavam a carregar no ventre filhos libertos. 
A alegria que sentiram, ainda que continuassem presas aos grilhões do cativeiro cruel, provavelmente só quem é mãe pode compreender em sua plenitude. Toda mãe deseja uma vida melhor para seus filhos e, ainda que ela sofra, será feliz se puder assegurar ao fruto do seu ventre um futuro de bem estar e alegria. Por isso as negras escravas festejavam.
Não mais a sombra nefasta do trabalho escravo, não mais o pesadelo do pelourinho e da chibata, não mais o fantasma dos castigos sangrentos, das punições cruéis, 
dos maus- tratos sem direito de queixa. 
Nesse dia longínquo, por certo se ouviu nas senzalas um cântico alegre só entoado nos dias de festas na África distante de onde vieram e da qual sentiam tanta saudade. Dia de alegria para a mãe preta, mãe negra que muitas vezes teve que deixar de lado o próprio filho para alimentar em seu peito o filho da Sinhá, a senhora da sua vida e do seu destino.

Ah, mãe preta tão sacrificada, tão desprendida, tão amorosa. 
Mãe preta de leite branco que tantos brancos alimentou. 
Mãe preta a quem o Brasil tanto deve e de cuja resignação e espírito de sacrifício muito aprendemos. 
Mãe preta que mesmo velha, encarquilhada, carapinha branca, junto com os segredos da cozinha e do forno, junto com a arte dos quitutes que tão bem preparava, ensinava as mais sublimes lições de amor e de ternura, de abnegação e de perdão, pois a todos recebia em seu regaço, mesmo sofrendo e sendo espezinhada. 
Nós te saudamos Mãe Preta, figura majestosa da nossa história colonial, exemplo de tantas virtudes e fonte de tanto carinho. 
Deus te abençoe, Mãe Preta, mãe negra feita de ternura.
Um afro abraço.

Fonte: www.vidadeagencia.com.br/Silvane Aparecida da Silva: “Racismo e Sexualidade nas Representações de Negras e Mestiças no Final do Século XIX e Início do XX”. (Dissertação de Mestrado apresentado à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em História Social sob a orientação da Prof.ª. Doutora Maria Odila Leite da Silva Dias). São Paulo, 2008.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Irmão...


Na cultura nepali, o 5 de setembro  é o “Dia do Irmão”. A celebração faz parte de uma série de comemorações de festivais hindu. Lá, este é um dia de reconciliação, perdão e reencontro.
 
A religião védica

As raízes do hinduísmo podem ser encontradas em algum ponto entre o ano 1500 a.C. e o ano 200 a.C., quando os chamados arianos (isto é, os "nobres") começaram a subjugar o vale do Indo. As crenças dessas pessoas tinham ligação com outras religiões indo-européias, como a grega, a romana e a germânica. Sabemos disso pelos chamados hinos védicos (da palavra Veda, ou seja, "conhecimento"), que eram recitados por sacerdotes durante os sacrifícios a seus muitos deuses. O Livro dos Vedas consiste em quatro coletâneas, das quais certas partes datam de cerca de 1500 a.C.
O sacrifício era importante para o culto ariano. Faziam-se oferendas aos deuses a fim de conquistar seus favores e manter sob controle as forças do caos.

Achados arqueológicos no vale do Indo indicam que houve uma civilização avançada na Índia,anterior à chegada dos indo-europeus, e é certo que essa civilização também contribuiu para o hinduísmo moderno. A época conhecida como período védico tardio, de 1000 a.C. até 500 a.C., marcou uma virada crucial no desenvolvimento religioso da Índia. Importância especial tiveram os Upanishads, que até hoje são os textos hinduístas mais lidos. Foram escritos sob a forma de conversas entre mestre e discípulo, e introduzem a noção de Brahman, a força espiritual essencial em que se baseia todo o universo. Todos os seres vivos nascem do Brahman, vivem no Brahman e ao morrer retornam ao Brahman.


Esta data foi escolhida em 2007 no 10º aniversário de falecimento de Madre Teresa de Calcutá, que faleceu em Calcutá na Índia.
 
Por que?
 
É o dia que todos nós, filhos, reconhecemos que fomos gerados, que não fomos sempre independentes, que não andávamos com nossas próprias pernas desde muito cedo – aliás, quantos tombos até a conquista de um relativo equilíbrio sobre dois pés !Dia de reconhecer que éramos dependentes para nos alimentar, para nos banhar e para nos proteger dos perigos. Dia de relembrar antigas canções que embalavam nosso sono. Dia de relembrar da segurança do peito de onde vinha nutrição e aconchego. Hoje é dia de gratidão por nove meses de morada compulsória, por dores do parto, por preocupações sem fim, por sintomas que não entendíamos mas que a mãe decifrava. É dia de nos acharmos novamente pequenos e necessitados de cuidados. É dia de olhar para onde tudo começou: no ventre de nossa mãe. Por isso, hoje, com a idade que cada um de nós, filhos, temos, é dia de reconciliação, se houver rupturas no relacionamento; é dia de expressão de afeto, é dia de celebração, de almoço juntos, de telefonema, de nostalgia pela ausência que deixou boas lembranças,de alegria pelo dia em que se poderá novamente abraçá-la. É dia de, ainda que não haja razão alguma para se alegrar, nem história para contar, agradecer ao ventre que gerou a possibilidade de existir, até mesmo para os que não tiveram a experiência de sentirem filhos.
Essa escolha teve a aprovação da Irmã Nirmala, Superiora Geral das Missionárias da Caridade Sucessora da Madre, e também do Pe. Miguel Elias Alderete Garrido, no ano de 1999.  

rmã Dulce nasceu em Salvador, no dia 26 de maio de 1914. Seu nome de batismo é Maria Rita Lopes Pontes, filha de Augusto Lopes Pontes e Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes. Quando criança rezava muito e pedia sinais a Santo Antônio se deveria seguir a vida religiosa.


Em 1927, Ela se manifesta, pela primeira vez, a vontade de entrar para o convento. Desde os treze anos ajudando mendigos, enfermos e desvalidos. Até que aos 18 anos seu pai aceitou a idéia de sua filha tornar-se freira.

Em 1932, recebe o diploma de professora, pela Escola Normal da Bahia. Um ano mais tarde ingressa na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição das Mães de Deus, do Convento de São Cristóvão, em Sergipe.

Em 15 de agosto de 1934, faz os votos de profissão de fé religiosa. Em homenagem a sua mãe recebe o nome de Irmã Dulce. Após tornar-se freira, é enviada novamente a Salvador, para trabalhar como enfermeira voluntária no Sanatório Espanhol por 3 meses.

Irmã Dulce abrigava as pessoas doentes em casas arrombadas, ela também transformou o galinheiro de um convento num albergue para pobres.

A Associação Obras Sociais Irmã Dulce foi fundada em 26 de maio de 1959, e instalada em 15 de agosto de 1959, data em que a Irmã Dulce recebeu o estatuto de fundação, de caráter filantrópico, e elaborado pelo seu pai.

Em 1980, Irmã Dulce tem o seu primeiro encontro com o Papa João Paulo II. Fundou o Círculo Operário da Bahia, que além de escola de ofícios, proporcionava atividades culturais e recreativas. Quase não comia e não dormia. Os sacrifícios resultavam felicidade. Queria morrer junto aos pobres.

Faleceu em 13 de março de 1992, aos 77 anos, no Convento Santo Antônio, depois de passar 16 meses internada. Desde então a sua obra passou a ser dirigida pela sua sobrinha, Maria Rita Lopes Pontes.

CONFRONTO

Bateu, Amor à porte da Loucura.
"Deixe-me entrar, pediu, sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu a paixão"

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto o Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo, de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu".
Mais que ningém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu.

Enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de Amor"
Ah! Desgraçados!

Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: "a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando".
Mas que cidade?

Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguem se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça.

Bertolt Brecht          
... Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
... Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
... Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim? (Discurso)

Eros e Psique

...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos.
 
No dia seguinte, para que nem a gente desconfiasse de nada, voltamos a nos tratar como irmãos adolescentes que se odeiam.
Irmãos, sede os vencedores da rotina escravizante.

Em cada dia renasce a luz de uma nova vida e com a morte somente morrem as ilusões.

O espírito deve ser conhecido por suas obras.

É necessário viver e servir.

É necessário viver, meus irmãos, e ser mais do que o pó!
Eurípedes Barsanulfo                        

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.

Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.

No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de

sol, de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo

mais do que os padres lhes ensinavam no internato.

Aprendeu com a natureza o perfume de Deus

seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul

E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida

no tronco das árvores só serve pra poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.

Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,

envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros

e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.

Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore

porque fez amizade com muitas borboletas."
 
Um afro abraço.

fonte:minhaprece.com/irma-dulce/historia-de-irma-dulce





O mês das árvores e da primavera: “O sujeito nas encruzilhadas da Saúde:um discurso sobre o processo de construção de sentido e deconhecimento sobre sofrimento difuso e realização do ser no âmbitodas religiões afro-brasileiras e sua importância para o campo da Saúde Coletiva”



22 de setembro marca a chegada da primavera nos países do hemisfério sul. É quando se inicia a 
transição dos dias mais frios do inverno para o período mais ensolarado e quente. No Jardim das 
Florestas já se pode observar as  bromélias,
 orquídeas, ipês, azaléias e muitas outras flores 
vibrantes embelezando essa estação. 
árvore, e esse dia foi eleito em razão dos povos

indígenas que sempre cultuaram as árvores durante a época das chuvas, ou quando a terra era 
preparada para semeadura, geralmente no início da primavera. 
As árvores não têm apenas a função paisagística. Elas protegem as lavouras contra os ventos,
 fornecem sombra e amenizam a emissão de gases de efeito estufa. Para o meio ambiente, as 
árvores são fundamentais, pois servem de abrigo e fornecem alimentos para diversas espécies de 
animais, inclusive o homem, que se alimenta de seus frutos. 
As árvores ajudam a equilibrar o clima de uma região. Observe, por exemplo, um parque ou floresta
 e sinta o clima mais fresco. Para a economia, as árvores fornecem a matéria-prima para móveis, 
utensílios domésticos e a celulose, que serve para a produção de papel. Mas é importante que, no
 momento da compra, a pessoa saiba escolher produtos oferecidos por empresas que possam
 comprovar a origem da madeira, ou seja, as que utilizam madeira com certificação. 
As árvores nativas do Brasil estão intimamente ligadas à história e ao desenvolvimento econômico e
 social do nosso país. A mais antiga e importante relação é com o próprio nome da nação “Brasil” 
que foi emprestado da árvore conhecida popularmente como “pau-brasil”. 

Dezenas das cidades do país também emprestaram seus nomes de árvores nativas que eram
 freqüentes em suas regiões geográficas, como exemplos podem ser citados: Imbuia- SC, 
Guarantã-SP, Louveira – SP, Angicos – PE, Cedro – SP, Juazeiro – BA, etc. 

Algumas espécies representaram tamanha importância para as populações locais, que emprestam
 seus nomes a várias cidades; por exemplo, a espécie Araucaria angustifolia (Bert.) Kuntze 
(pinheiro), e o buriti (Mauritia flexuosa L.f.). 

Algumas espécies representam grande importância na vida econômica do país, que historicamente
 caracterizaram uma época ou um ciclo como, por exemplo: o pau-brasil, a seringueira, a carnaúba,
 o pinheiro, o cacau, o baguaçu, e mais recentemente o mogno. 

Nomes de árvores nativas são também utilizados de norte a sul do país para designar ruas, praças,
 palácios, bairros, etc

TRATAMENTOS NÃO CONVENCIONAIS:À PROCURA DA CURA DO CORPO E DO 
ESPIRITO...

Desde o início da sua expansão no Brasil, o Espiritismo se afastou das vertentes mais
 racionalistas do Kardecismo e se definiu como uma forma religiosa (Ortiz 1988); o primeiro 
movimento espírita organizado e datado de 1873 denominou-se Sociedade de Estudos 
Espíritas do Grupo Confúcio, no Rio de Janeiro, com o motto “os verdadeiros espíritos não 
existem sem caridade”, defendendo os princípios da prática da homeopatia e da cura pela fé 
(ORTIZ, 1997). Com o tempo a orientação terapêutica foi assumindo mais importância, 
passando a ser um dos focos centrais da religião. Esta vertente da caridade e da cura foi 
integralmente incorporada na Umbanda, afirmando-se como central na filosofia umbandista9, 
no Brasil como em Portugal.

Se na Umbanda a questão da cura é central, ela é igualmente crucial no Candomblé, e em 
Portugal muitos adeptos chegam inicialmente a estas religiões à procura da solução para 
situações de crise directamente ligadas à doença. A afirmação de que “se não se chega pelo 
amor, chega-se pela dor”, comum na explicação da forma de chegada a práticas religiosas 
variadas, é amiúde ouvida a respeito da Umbanda e do Candomblé.  Mesmo quando o 
problema não é directamente de doença, a somatização do que aflige os indivíduos faz com 
que a face visível desses distúrbios seja frequentemente o mal-estar físico e a doença. 

Podemos aqui seguir o que Paula Montero (1985) descreve e analisa, ao explicitar, muito no 
seguimento da linha teórica de Mary Douglas, a ideia de que a desordem é conceptual e 
cognitivamente equiparada à doença, e que portanto qualquer coisa “fora da ordem”, a nível 
psíquico ou simbólico, equivale e provoca problemas físicos. Tal como Montero afirma, as 
fronteiras entre o que é muitas vezes denominado “doença material” e “doença espiritual” são 
muito fluidas, e nos contornos da conceptualização do que são “doenças materiais” estão já 
presentes as matrizes que possibilitam uma interpretação mágico-religiosa (MONTERO, 
1985, p. 118). Paralelamente, a eficácia da intervenção mágica tem como contraponto o 
fracasso da terapêutica oficial. Ou a medicina oficial não consegue “ver” a doença, porque o 
mal é de outra natureza—isto é, espiritual, não passível de diagnóstico pelos métodos físicos 
da medicina ocidental—ou,   apesar de a identificar, não a consegue curar porque a sua 
origem está num problema, numa “desordem” do foro não material10. Isto está patente no 
discurso dos indivíduos:

Eu realmente estava muito doente, mas os médicos não conseguiam perceber o que se 
passava. Foi o preto velho que me disse que era qualquer coisa no meu peito, e que eu tinha 
de ser tratada. Foi ele primeiro que percebeu o que se passava, antes mesmo dos médicos 
saberem que eu tinha cancro (Sofia, 32 anos, caixa de supermercado).

A relação estabelecida entre a doença e a noção religiosa de perda de equilíbrio permite não 
só estabelecer a ponte entre os dois sistemas (o da biomedicina e o da religião), mas abre 
também espaço para a actuação mágico-religiosa, tal como Paula Montero explicita 
(MONTERO, 1985, p. 126):

O processo de mutação que transforma a noção médica de “doença” na noção religiosa de 
“desordem” termina pois numa inversão interessante: por um lado, a noção de “doença 
espiritual” implica a negação da doença (ou da sua representação) tal como ela é atribuída à 
esfera da atuação do médico – negação necessária [...] à determinação de um espaço 
legítimo de atuação mágica; por outro, a própria noção de “doença espiritual” reenvia 
novamente ao âmbito da atuação médica --  já que o corpo sofre as consequências da acção 
desordenada dos espíritos, ou está irremediavelmente condenado à doença, em virtude das 
suas faltas anteriores --, mas inverte as posições iniciais  de importância e legitimidade.

Neste processo, a medicina transforma-se num apêndice que pode secundar a acção mágica 
e ajudar a curar, ou servir de suporte aos que já não conseguem escapar ao sofrimento e à 
morte, e que também por vezes se voltam para a medicina para minorar a dor (MONTERO, 
1985).

Na tipologia tripartida que Montero identifica encontram-se três tipos de fenómenos mórbidos: 
as doenças causadas pelos próprios indivíduos, as provocadas por terceiros, e as kármicas. 
Apesar das diferenças, todas elas têm por base a concepção, comum em todas as religiões 
afro-brasileiras, de uma ideia de bem-estar baseada na concepção holística da pessoa, em 
que o corpo e a mente estão interligados, rejeitando assim dicotomias cartesianas que os 
separam. Ser saudável significa estar equilibrado11. Assim, as categorias nosológicas das 
variadas doenças são explicadas através da visão do mundo do Candomblé e da Umbanda. 
Tanto a doença como o seu diagnóstico não podem ser dissociadas das suas cosmologias e 
conceptualizações mágicas e religiosas que reflectem as relações sociais e os princípios 
básicos destes universos (BARROS; TEIXEIRA, 1989). Deste modo, a maioria das 
performances rituais são estratégias para manter ou restaurar o bem-estar físico, mental e 
social.

O equilíbrio está identificado com a saúde; se uma pessoa está doente quer dizer que ela 
está perturbada, o que se pode dever a uma larga variedade de causas. Pode relacionar-se 
com falhas no cumprimento das obrigações para com os espíritos dos mortos, e nesse caso 
só pode ser curada quando essas obrigações forem cumpridas, restaurando o equilíbrio entre 
a pessoa e o seu orixá. A doença tem portanto origem numa falta de equilíbrio entre forças 
que têm a sua origem no sobrenatural e que actuam sobre o indivíduo. A noção de axê é 
central, já que axê é definido como uma força, uma energia vital sagrada presente em todos 
os seres naturais. Esta energia precisa de ser dinamizada; é através dos ritos que este 
processo é assegurado, iniciando-se com o tocar dos tambores e a entoação dos pontos 
cantados12 que potenciam a descida dos deuses e entidades.

 NOSSO CORPO COMO LOCUS DE ACÇÃO...


No processo de construção do carácter sobrenatural da doença e a cura o corpo humano 
transforma-se no mais importantelocus de acção, em que a crença e as emoções estão 
concentradas, e em torno do qual uma série de representações que ultrapassam largamente a 
caracterização biológica do corpo humano são construídas.

O papel do corpo neste processo prende-se com dois aspectos distintos, mas relacionados 
entre si. O primeiro tem a ver com a importância da relação constante e permanente que é 
mantida entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, que em tempos possuíram corpos 
físicos, mas que são agora seres sem aparência física concreta. O valor desta relação entre 
os dois mundos é também visível na conceptualização da vida social, que implica não apenas 
o relacionamento com os parentes vivos, mas também como os defuntos, que se tornaram, 
entretanto—na Umbanda, por exemplo13-- espíritos e antepassados.

Esta relação leva-nos ao segundo aspecto, o da importância do corpo e do papel central que 
a incorporação joga nestas religiões.

A possessão é crucial, a base para se compreender todo o sistema religioso, que opera 
através de uma sistemática exploração do corpo como locus para a manifestação do 
sagrado (BRUMANA; MARTINEZ, 1997, p. 11). É o corpo o veículo de comunicação com os 
deuses e os espíritos, pensados enquanto representações das forças da natureza; é o corpo 
que se transforma para permitir a manifestação física dos espíritos e a sua comunicação com 
os vivos. A possessão suprime, temporariamente, a distância entre o mundo dos humanos e o 
dos deuses, ou entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Como Márcio Goldman refere:

[…] o transe e a possessão […] suspendem todas as distâncias entre o Aiê e o Orum
fazendo com que os orixás encarnem nos homens e transmitam alguma coisa da sua 
essência divina, ao mesmo tempo que uma certa dose de humanidade lhes é insuflada pelos 
fiéis que concordam em recebê-los” (GOLDMAN, 1987, p. 111).

Considerando a possessão como uma celebração da vida e da comunicação, ela só é no 
entanto possível através de um complexo processo de iniciação, no qual o corpo tem um 
papel essencial.

 RESTAURAR O BEM-ESTAR
No seio de uma religião que celebra a vida através do uso do corpo, manter um corpo 
saudável é uma prioridade máxima. Se considerarmos todas as razões acima expostas, em 
que se percebe bem a relação entre os estados físicos e as relações entre os humanos e os 
espíritos, percebe-se que o início de qualquer procedimento terapêutico deve começar por 
práticas que restauram essas boas relações.

Todos as causas acima mencionadas como responsáveis pelos distúrbios estão 
directamente ligados à qualidade da pessoa enquanto membro da congregação religiosa. 
Mas, além desses, em todos os terreiros há um importante grupo de pessoas, que podemos 
categorizar como “clientes”, que aí chegam à procura de alívio para as situações de crise, em 
que mais uma vez os problemas de saúde têm uma grande visibilidade. O diagnóstico para 
os problemas é muitas vezes relacionado com um encosto (espírito de um morto que não 
atingiu o seu lugar no além), e a purificação é o primeiro passo para a cura. Muitas vezes, 
estas pessoas que chegam aos terreiros pela doença, acabam por descobrir a sua 
mediunidade e começam a percorrer o caminho da iniciação:

Primeiro fui a uma terapeuta brasileira, que usava aromaterapia e gemoterapia22; daí passei 
para o terreiro, e descobri a importância dos orixás. Comecei o meu caminho de iniciação. 
Quando me diagnosticaram o câncer no peito, fiz cura por magnetismo, gemoterapia e 
aromaterapia, mas teria morrido se não fossem os meus orixás (LAURA, mulher, 31 anos, 
desempregada).

Em qualquer dos casos, após o diagnóstico, realizado pelo especialista religioso usando os
 métodos divinatórios anteriormente explanados, a cura implica a restauração da unidade 
fragmentada pela perda do axê.  Se bem que as sequências rituais difiram de terreiro para 

terreiro, basicamente compreendem sempre um período de preparação, em que a pessoa se 
desliga das suas actividades mundanas, seguida dos primeiros ritos de limpeza e 
purificação. Estes incluem libações, banhos de ervas, uso de ervas para colocar por cima da 
parte do corpo lesada, defumações, uso de pólvora, epasses. Algumas entidades 
especializadas na cura, como é o caso dos pretos-velhos, fazem também massagens ou cura 
através do toque.

As plantas, ervas e raízes usadas nas terapias todas têm um significado específico e uma 
relação particular com os orixás. Do mesmo modo que cada orixá requer o sacrifício de um 
determinado animal e a oferenda de uma comida específica, também cada um deles tem uma 
relação especial com o mundo vegetal. Como tal, as plantas são usadas não apenas nos ritos 
religiosos, mas também nos ritos terapêuticos. Um dos aforismos recorrentes nos terreiros é 
kosi ewe, kosi orisha”: sem folhas, não há orixás”.

A grande maioria dos ritos de purificação requer o uso de plantas, já que as folhas são 
consideradas uma das fontes primordiais de axé. Os pais e mães de santo muitas vezes 
afirmam que o uso da folha correcta pode matar ou curar um indivíduo: as folhas 
“quentes”(associadas com os orixás do fogo e da terra, como Ogum e Exú), agitam as 
atmosferas, as emoções e os indivíduos, e podem causar mal, enquanto que as  folhas “frias” 
(relacionadas com os orixás da água e do ar, como Oxum e Oxalá) apaziguam e tranquilizam. 
O conhecimento profundo da adequação das plantas e das folhas a cada ritual ou terapia é 
portanto uma das mais importantes qualificações de qualquer pai ou mãe de santo respeitado 
(SILVA, 1985, p. 209). Associadas à proclamação de palavras mágicas que potencializam a 
sua eficácia, flores, plantas, ervas, raízes, sementes e casacas de árvore são usadas na 
preparação de medicamentos, bebidas e libações profilácticas 23.

Na diáspora, a importação de ervas e folhas envolve certas dificuldades, e muitos pais de 
santo que viajam até ao Brasil retornam com malas cheias de plantas. Quando não é possível 
obter as plantas originais, estas são substituídas por outras, que se encontram em Portugal, o 
mais parecidas possível (em forma, aroma, características ou efeitos terapêuticos) com as 
originais.

Os ebós de saúde24 são preparados com determinados ingredientes e seguindo 
determinadas regras rituais que respeitam a relação directa com o mal que se pretende curar 
e, sobretudo, o orixá directamente ligado a essa pessoa. Cada orixá tem uma comida 
própria, confeccionada a partir de ingredientes específicos.  Por isso mesmo, o ebó de saúde 
de uma pessoa cujo orixá de cabeça é Iansã incluirá sempre o acarajé, prato feito com feijão-
frade, partido e moído de modo a formar uma massa fina a que se junta cebola e se frita em 
azeite de dendê; o de alguém filho de Oxum inclui obrigatoriamente uma comida ritual 
denominada ado, fabricada com milho vermelho torrado e moído e temperado com azeite de 
dendê e mel.

Nos ebós de sáude figuram obrigatoriamente as pipocas. Sendo que as comidas rituais se 
ligam directamente à mitologia de cada orixá, as pipocas estão relacionadas com o orixá por 
excelência da doença, Obaluaiê (também conhecido como Omolu)25. De acordo com o mito, 
Obaluaiê ficou doente com varíola; as pipocas, também denominadas “flores de Obaluaiê”, 
representam as marcas deixadas na pele por essa doença. Curado por Iemanjá, Obaluaiê é o 
orixá que rege a saúde e a doença, e as pipocas são a sua comida primordial.

Cada terapia envolve elementos específicos, que dependem das características dos 
pacientes e das suas energias, as especificidades dos seus orixás, os traços da própria 
doença. As práticas terapêuticas envolvem não apenas a cura imediata, o tratamento dos 
sintomas, mas também um objectivo profiláctico, como a prevenção de subsequentes 
problemas. Qualquer terapia é supervisionada por um orixá ou pela entidade responsável, e 
são eles que indicam quais os métodos curativos apropriados, os ingredientes a serem 
usados, e são eles próprios que, em última análise, procedem à cura, incorporados nos seus 
cavalos. A este tipo de cura praticado nos terreiros, normalmente no decorrer da própria 
gira26em que sobretudo pretos velhos e caboclos actuam, juntam-se as 
performances em sessões de cura especiais. Estas sessões incluem toda uma série 
de técnicas que podem ser englobadas na panóplia mais vasta de terapias Nova Era, 
que nas últimas décadas se tornaram disponíveis em Portugal e que, a avaliar pelo 
número de sites na internet, a publicidade nos jornais, revistas e rádio, e a difusão de 
lojas esotéricas, agradam imenso aos portugueses, que se transformaram em seus 
fiéis consumidores.

Obs: Os orixás eram venerados na África somente pelos iorubas ou nagôs, um povo que vive 
no sudoeste da Nigéria e no sudeste da atual República do Benim. Como outras religiões 
africanas, a dos orixás era um conjunto de cultos locais, ligados a santuários próprios. 
Quando o seus fiéis foram tirados à força de suas terras e atravessaram o Atlântico, tiveram 
de se ajustar a uma situação inteiramente nova, na qual os seus deuses viajaram com eles e, 
inicialmente, só tinham altares em seus corações.
No caso da religião dos orixás, vários deuses locais já se haviam tornado, no chamado 
Iorubo, ou terra dos iorubas, deuses nacionais. Xangô, por exemplo, um rei ancestral 
divinizado de Oiá, e Ogum, um rei ancestral divinizado da cidade-estado de Irê, já eram 
venerados por outros iorubas. Mas a religião dos orixás não se expandiu na África. Não conta 
com adeptos entre sereres, banhuns, ibos, andongos, iacas, angicos, xonas, macuas, zulus ou 
outros povos africanos, que a desconhecem. E se retraiu no próprio Iorubo, sob o impacto do 
cristianismo e do islamismo. Foi nas Américas, a partir sobretudo do Brasil e de Cuba, que 
ela se tornou uma religião universal, com deuses que não pertencem exclusivamente a um 
povo, mas a toda a humanidade. No Brasil, a religião dos orixás fez adeptos não só entre 
originários de outras nações africanas, mas também entre descendentes de guaranis, cariris, 
pataxós, fulniôs, portugueses, espanhóis, italianos e muitos outros povos.
Sua história não é, assim, diferente da história do cristianismo e do islamismo, que 
começaram como religiões locais – de um punhado de judeus, num caso, e de um grupo de 
árabes, no outro – e se expandiram pelo mundo.

Um afro abraço.

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